Semana do Cerrado será celebrada com Seminário e Romaria em Correntina no Oeste da Bahia

Seminário será realizado no CTL- Centro de Treinamento de Líderes. O evento objetiva chamar a atenção para necessidade de preservação da fauna e flora que sofre com o processo de exploração

Cartaz - Semana do Cerrado 2015

O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”, diz Altair Sales, um dos maiores conhecedores do bioma Cerrado.

Verdadeira caixa d’água instalada no coração do país, o Cerrado, está com seu futuro comprometido. Segundo dados do IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) e Ministério do Meio Ambiente, houve, nas últimas décadas, uma redução de mais de 50% de sua área original. Fruto de modelo de expansão predatório e danoso, a exemplo da exploração agrícola e monocultura em larga escala, práticas que deixam rastros de destruição visível a olho nu.

Só na região oeste da Bahia, onde há predominância do ecossistema Cerrado, muitos rios e cursos d’águas secaram e os existentes vem notadamente diminuindo sua vazante, o que é motivo de preocupação, pois são sinais sutis para urgente necessidade de preservação.

Alguns especialistas afirmam que o bioma pode desaparecer em 50 anos caso ações de compromisso e respeito não sejam postas em práticas. Já o professor, antropólogo e arqueólogo correntinense, Altair Sales, um dos maiores conhecedores do bioma Cerrado, é catedrático ao afirmar que “o Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”.

O Cerrado é como uma espécie de floresta invertida. Enquanto as árvores amazônicas têm copas enormes e raízes pequenas, no centro do Brasil as árvores são menores, mas com raízes muito grandes. Elas funcionam como uma esponja, captando água e a distribuindo por toda região. Significa que destruir essas árvores é comprometer a vida de todo o planeta, pois a natureza trabalha em rede.

Neste 11 de setembro, Dia do Cerrado Brasileiro, mesmo tendo pouco o que comemorar, por iniciativa das comunidades, entidades, organizações e movimentos sociais que atuam na região, estará acontecendo em Correntina a 2ª Semana do Cerrado com realização de Seminário para debater o tema e, também, a 2ª Romaria do Cerrado.

Para saber um pouco mais sobre essas ações, entrevistamos a professora, comunicadora e militante Anailma Meira, que apresenta para nós um poucos das ações planejadas.

 

CULTURAS CORRENTE: Em que contexto surge a romaria e o seminário do cerrado?

ANAILMA MEIRA: Num contexto de grito, clamor da natureza e de seu povo. Vivemos um momento onde nosso bioma cerrado ecoa por todos os cantos, dando sinal de alerta, pois sua biodiversidade está prestes a extinguir. Os grandes impactos ambientais vem criando uma situação irreversível. O modelo regional baseado no agronegócio fez com que nos últimos 10 anos o oeste da Bahia se tornasse um dos maiores produtores de grãos do país à custa da derrubada de milhares de árvores e da extinção de vários cursos d’água. Surge também no momento de muitas esperanças, pois o povo sente o clamor da natureza porque se mistura com ela em seu dia a dia, se espalham e se juntam ao mesmo tempo em pequenos grupos que, como aranha, vão formando uma teia na proteção e defesa deste vasto território de riquezas e fragilidades. Ao som das águas, recebem energia, harmonizam-se e vão prosseguindo o caminho para defender a terra, a água e o direito. Não temos dúvida na força das águas em nossas vidas; é ela, não outra, que nos convoca a sair de nosso mundinho e ir para luta.

 

CULTURAS CORRENTE: De quem é a iniciativa desse evento?

ANAILMA MEIRA: A iniciativa desta experiência parte das comunidades, entidades, organizações e movimentos sociais que atuam na região, são todas as forças vivas que vem enfrentando e se fortalecendo na luta.  São envolvidos diretamente na organização desta semana: A Comissão Pastoral da Terra-CPT, Agencia de 10esenvolvimento, os sindicatos rurais do Território, Sinditec, Acefarca/EFAPA, associações das comunidades tradicionais fundo e fecho de Pasto, MAB, lideranças comunitárias, ambientalistas, romeiros e romeiras da terra e das águas.

 

CULTURAS CORRENTE: Qual o objetivo dessas ações?

ANAILMA MEIRA: Dar “voz e vez” e “fazer ecoar” o “clamor” do Cerrado e do seu povo. Despertar todas as camadas da sociedade para o enfrentamento da luta. Celebrar o dia do Cerrado e também o fortalecimento das organizações existentes e despertando para criação de novas com o mesmo objetivo: Defender o cerrado em pé.

 

CULTURAS CORRENTE: Por que a escolha do município de Correntina para essa segunda edição da semana do cerrado?

ANAILMA MEIRA: Por ser um dos municípios que vem vivenciando intensos conflitos socioambientais que envolvem grilagens de terras, pistolagem, destruição do cerrado e, também, pela organização e resistência que precisam ser fortalecidas junto às demais comunidades que vêm enfrentamento o mesmo problema.  Por parte dos movimentos sociais de Correntina é um desejo de muitos anos e que este ano se concretiza.

 

CULTURAS CORRENTE: Como esse evento contribui com o aprofundamento sobre o conhecimento do processo de degradação do Cerrado?

ANAILMA MEIRA: Para obter um bom diagnóstico da realidade, é preciso ter vivência, pés firmes e fincados na luta cotidiana, capacidade de analisar todos os fatos que vem ocorrendo, aprofundamento de conhecimentos elaborados por estudiosos, comunidades cientificas e pelo povo; e tudo isto está previsto acontecer.  Não temos dúvida da grande contribuição deste evento, não somente para levantamento de dados, mas de fortalecimento das iniciativas que já vem sendo conduzidas para que possa consolidar grande projeto popular, de soberania, de defesa do cerrado, da garantia da água em seus mananciais, da vida do povo geraseiro, de todas essas organizações geradoras de vida em nossa região.

 

CULTURAS CORRENTE: É um evento ligado a alguma religião?

ANAILMA MEIRA: Não. Evento de pessoas, cidadãos, cidadãs, que lutam pela vida… Aberto para todas as religiões, pois entendemos que a defesa da vida não se limita as quatro paredes de uma Igreja. Reconhecemos o grande papel das igrejas que se comprometem com esta luta. O Papa Francisco vem alertando-nos da responsabilidade que devemos ter com a “nossa casa comum”. Este testemunho ajuda a nos fortalecer e reconhecer nosso papel como uma verdadeira comunidade cristã, que bebe da palavra de Deus e luta pela vida ao mesmo tempo.

 

CULTURAS CORRENTE: A que público se destina?

ANAILMA MEIRA: Por se tratar de um espaço limitado, este evento terá a participação de 100 a 120 pessoas; as vagas foram distribuídas por municípios: lideranças dos diversos grupos, estudantes, organizações, entidades, instituições, órgãos ambientais presentes na região. Entre estes, destacamos as comunidades tradicionais que estão na luta pela defesa e reconhecimentos de seus territórios.

 

CULTURAS CORRENTE: Qual o contexto político dessa ação?

ANAILMA MEIRA: Vivemos o caos. Os dados são alarmantes, visto o ritmo acelerado com que licenciamentos para desmatamentos e outorgas para retirada da água estão se dando no oeste baiano. Os territórios das comunidades tradicionais são invadidos pelas grandes empresas que acham que podem tudo. A inclusão desta região em uma nova região geográfica brasileira, criada a partir dos interesses da expansão das fronteiras agrícolas. Para o povo que vive e depende do cerrado, este será o “assalto final” contra as áreas ainda preservadas, que também são as áreas produtoras de água mantenedora da vida.  Será um momento de dizer um NÃO, a tudo que destrói a vida, e um SIM ao Cerrado em pé pois dele brotam as águas que geram a vida.

 

CULTURAS CORRENTE: Fale um pouco sobre o seminário.

ANAILMA MEIRA: O seminário acontecerá nos dias 09 e 10 de Setembro, no Centro de Treinamento de Líderes (CTL), na cidade de Correntina. Serão dois dias intensos de estudo, aprofundamento, partilha de experiências, da comida, da alegria, do compromisso, do bom papo, da música de qualidade, de vivência no Cerrado, do conhecimento de seus agravantes, suas riquezas e as alternativas de sobrevivência. Será um momento de fortalecimento de nossa cultura, destacando a chulas como uma das grandes manifestações culturais de grande riqueza para nosso povo.  Este seminário será dedicado a dois grandes personagens que vivem em outra dimensão, mas deixaram grandes contribuições para o nosso povo do Cerrado, suas organizações, instituições educacionais e o povo em geral: o professor Avelino de Miranda, autor de vários livros que tratam a realidade do Cerrado do oeste baiano, e o Mestre Salú, natural da comunidade do Tatu, deixando como herança muita riqueza cultural, entre tantas destaca-se a chula.

 

CULTURAS CORRENTE: Qual a expectativa em relação à romaria?

ANAILMA MEIRA: Expectativas de alegria, responsabilidade, de desáfio para Correntina que tornará o palco e a sede dos clamores do povo pelo gerais em pé. Acreditamos que esta romaria fará uma grande diferença na vida de todos aqueles que reservarem seu tempo para estarem conosco neste dia de celebração, caminhada, contemplação e compromisso. Este evento de manifestação pública será uma oportunidade de pautar para a sociedade a luta que deve ser acampada por todos os que bebem agua, por isso acreditamos que as ruas de Correntina neste dia terá um colorido especial, crianças, jovens e adultos num mesmo passo, mesmo objetivo, numa mesma voz.  A expectativa é que haja adesão e participação de várias camadas da sociedade, numericamente não teria ainda condição de prevê, mas a certeza de que aqueles e aquelas que virão é por que querem entrar e fortalecer esta luta tão nobre e justa.

 

CULTURAS CORRENTE: Quem está convidado a participar?

ANAILMA MEIRA: Todas as comunidades, denominações religiosas, grupos, instituições educacionais, ambientais, a população em geral, pessoas sensíveis a esta luta. Todos, aqueles e aquelas que bebem água, que ao atravessar o rio que vem secando, uma vereda, um córrego, rego que já secou, uma fonte que virou torrão, que sente uma pontada no peito como um nó engasgado em nossa garganta… A todos que tem vontade de entrar na luta pelo cerrado mais não sabe por onde começar. A todos aqueles e aquelas que indignam com tanta injustiça.

 

CULTURAS CORRENTE: Que tal reforçar convite para participação?

ANAILMA MEIRA: A 2ª Romaria do Cerrado acontecerá na cidade de Correntina no dia do Cerrado 11 de Setembro, sexta-feira, a partir das 08h (manhã). Estaremos concentrando no Ginásio de Esportes, ao lado do Vadozão. Venha, traga seu chapéu, bandeira, cartaz, garrafa de água ou caneca, a farofa para grande partilha no final da romaria. Traga todo seu entusiasmo, sua alegria e coragem para caminhar e nos fortalecer como pessoas de bem, que acreditam e lutam por uma sociedade do bem viver.

 

Por Robson Vieira

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